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Trinta e cinco dias e cerca de 9 mil quilômetros percorridos no Oceano Pacífico, com saída da cidade de Keelung, em Taiwan, e chegada em Lautoka, nas ilhas Fiji. Esse foi o trajeto da expedição Tara Pacific, promovida pela instituição francesa Tara Foundation. Entre os seis pesquisadores a bordo, a única brasileira era Andrea Santarosa Freire, do Departamento de Ecologia e Zoologia (ECZ) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Não tínhamos sábado nem domingo, trabalhávamos todos os dias, desde as 7h da manhã. Foi muito cansativo, mas ao mesmo tempo uma experiência incrível!”, relata Andrea.

O convite para integrar a expedição internacional surgiu por sua ampla experiência na área de pesquisas oceanográficas – Andrea é a vice-coordenadora do projeto MAArE – e, sobretudo, por seu envolvimento no projeto Veleiro de Expedições Científicas e Oceanográficas (Veleiro ECO) da UFSC, que está em fase final de construção e em breve será lançado no mar. “No processo de construção do Veleiro ECO na UFSC, aos poucos amadurecemos um convênio científico internacional com a Tara Foundation. O projetista do Veleiro ECO é o mesmo do Veleiro Tara. Quando o professor Orestes Estevam Alarcon [coordenador do Veleiro ECO] me convidou para participar do projeto, sugeri desde o início o Tara como inspiração.”

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A participação de Andrea na expedição Tara Pacific teve por objetivo principal aprimorar sua capacitação para a primeira expedição do Veleiro ECO, que está prevista para outubro. “Para mim, o grande diferencial dessa expedição no Pacífico foi ter sido feita em um veleiro. Tive um treinamento para a organização dos embarques que serão feitos no veleiro da UFSC. Uma coisa é velejar, outra coisa é usar um veleiro para fazer um trabalho tão meticuloso, tão preciso. Isso foi importante e tem consequências imediatas. Hoje vejo a organização da primeira expedição e a gestão do veleiro da UFSC de outra forma”, explica Andrea.

As expedições oceanográficas geralmente são feitas em barco ou navio a motor, o que justifica a originalidade de ambos os projetos: “Desde o advento do motor, quase não se faz oceanografia velejando. Há veleiros de pesquisa, mas não pesquisa oceanográfica. Mas para deslocamentos de longa distância, a vela ainda é o mais adequado”, afirma a professora. O veleiro do Tara Pacific tem 120 pés de comprimento — o que equivale a aproximadamente 37 metros —, sendo o dobro do tamanho do Veleiro Eco, que mede 60 pés.

Durante a expedição, que ocorreu em maio deste ano, a pesquisadora era responsável por toda a filtração de água no laboratório instalado no convés da embarcação. “A água do mar passava por vários filtros diferentes, para identificarmos bactérias, vírus, protista (microorganismos como a ameba), fitoplâncton e zooplâncton. Esses indivíduos serão depois analisados por morfologia, biologia molecular, citometria de fluxo etc. O material era armazenado de diferentes formas e utilizávamos protocolos técnicos complicados, que eu conhecia apenas da leitura de artigos da Science e da Nature. Tive a chance de ver como isso é feito realmente. Esses artigos são uma caixa preta, por isso foi tão importante conhecer os procedimentos desses protocolos e aprender como são realizados”, relata Andrea.

A expedição

O trajeto de 9 mil quilômetros percorridos pelo Tara Pacific seria o equivalente a navegar por toda a costa brasileira e um pouco mais. E sem pausas: o veleiro navegava o tempo todo, sem parar. O que possibilitou uma viagem ininterrupta, segundo Andrea, foi o desenvolvimento de uma rede que possibilitava a coleta de plâncton com o barco em velocidade de cruzeiro. “O usual, em qualquer expedição, é parar o barco e lançar a rede para fazer a coleta. Então puxar a rede com o barco a 2 nós de velocidade e depois parar o barco novamente para colher a rede.” Nessa expedição, entretanto, havia uma rede especial que podia ser usada com a embarcação em movimento: “É mais prático, não atrasa a viagem e não prejudica a manobrabilidade do barco. Não existe essa rede em lugar nenhum, ela é inédita no veleiro Tara”, explica a pesquisadora. A rede foi desenvolvida pelo pesquisador francês Marc Picheron, do Centro de Pesquisas de Villefranche sur mer, vinculado à Tara Foundation.

Integraram a expedição, além dos seis pesquisadores – oriundos da França, dos Estados Unidos, de Taiwan e de Israel –, uma jornalista e seis tripulantes (capitão, capitão imediato, chefe de convés, chefe das máquinas, mergulhador e cozinheira). Ao todo, eram 13 pessoas a bordo. E o trabalho era compartilhado. “Algo diferente nessa embarcação é que os pesquisadores participavam de toda a rotina diária, como lavar louça, limpar o banheiro, passar aspirador, servir a mesa e inclusive fazer o plantão noturno em turnos de 2 a 3 horas entre as 22h e 6h. Esse plantão noturno tornava o trabalho de pesquisa ainda mais exigente.”

Outro desafio, durante toda a viagem, foi suportar o calor. “Fazia muito calor! A gente derretia o tempo todo, suava muito e bebia muita água. O veleiro é preparado para viajar aos pólos. Isto é, para conservar calor. Mas estávamos atravessando uma região equatorial, onde o calor era insuportável. A temperatura girava em torno de 32 graus, mas a sensação térmica era de muito mais, era muito abafado. Uma pesquisadora chegou a passar mal, ficou desidratada e teve insolação.”

Também chamou a atenção da pesquisadora a preocupação com a sustentabilidade dentro do veleiro. “Tínhamos direito a um minuto de banho por dia com água doce. E todos respeitavam, raramente se via alguém com o chuveiro ligado por mais tempo. Após 35 dias em condições limitadas de conforto, percebemos que é possível viver causando muito menos impacto. Não precisamos tomar um banho de 10 minutos. A mensagem que fica é que a gente vive com um conforto excessivo.” Além da economia de água, os produtos de limpeza utilizados eram naturais e todo o lixo era separado – o lixo reciclável era compactado. Andrea também elogiou a qualidade das refeições servidas: “Isso foi especial, pois não é usual em nenhuma embarcação. O mais comum em barco são as comidas desidratadas, enlatadas. Mas nessa expedição, até o último dia tínhamos comida fresca. Nossas refeições não incluíam alimentos industrializados e quase tudo era orgânico. O pão era feito diariamente! A comida saudável e saborosa é fundamental para manter o bem-estar mental das pessoas.”

Dando prosseguimento ao convênio internacional da UFSC com a Tara Foundation, Andrea participará de um encontro na Universidad de Concepción, no Chile, que ocorrerá nesta semana, entre os dias 4 a 6 de setembro. O Tara South America Meeting tem por objetivo o planejamento e a viabilização de projetos oceanográficos envolvendo pesquisadores de diversos países, como Brasil, Chile, Argentina e França.

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