Apenas mulheres disputam a Prefeitura em um município da Grande Florianópolis

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Os quase 2,8 mil habitantes do município de Rancho Queimado, na Grande Florianópolis, já sabem que serão administrados por uma prefeita a partir de 1º de janeiro, independente do resultado da eleição deste domingo (2). A cidade, localizada a 60 quilômetros da Capital catarinense, é a única no estado onde a prefeitura é disputada apenas por mulheres.

São duas candidatas: por ordem alfabética, a professora e atual vereadora Cleci Aparecida Veronezi (PMDB) e a empresária Viviane Davoglio (PSD). É na visita casa a casa, nas várias comunidades que formam o município, que elas disputam o voto dos 2.782 eleitores de Rancho Queimado. A partir de 2017, uma delas vai administrar um município com orçamento anual de R$ 18 milhões, que se destaca no estado pela produção de morango e pelas paisagens naturais, e com prioridades como saúde, agricultura, educação e a infraestrutura viária.

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Perfis
A candidata Cleci Veronezi, casada e mãe de duas meninas, sempre gostou de política, apesar de não ter familiares que ocuparam cargos eletivos. Suas primeiras memórias sobre o assunto remetem ao avô, Pio Veronezi, que ouvia os discursos dos políticos pelo rádio, em Lages. O gosto pela política foi aumentando ao ponto dela gravar o horário eleitoral veiculado na televisão para assistir depois.

“Eu entendo que a política é a melhor maneira de mudar a vida de muitas pessoas”, considera a candidata do PMDB. “Sei que não vamos mudar o mundo, mas se conseguirmos melhorar a vida em Rancho Queimado, já terá valido a pena.”

Servidora pública, Cleci foi candidata a vereadora em 2012, sua primeira experiência na política. Não se elegeu por cinco votos, mas assumiu uma cadeira na Câmara no ano seguinte. Em 2015, foi presidente do Legislativo de Rancho Queimado.

Sua concorrente, Viviane Davoglio, é casada e tem dois filhos. Também não tem pessoas envolvidas com a política na família. É proprietária de uma farmácia e apesar de nunca ter ocupado cargo eletivo, foi secretária da Saúde de Rancho Queimado por três anos, entre 2013 e 2016.

A candidata vê na eleição para a prefeitura a possibilidade de renovar a política. “É uma grande oportunidade que surgiu e eu não sou de desperdiçar oportunidades como essas. Como secretária da Saúde e empresária, pude conhecer bem a realidade do nosso município”, afirmou.

Ambas as candidatas reconhecem que a disputa exclusiva entre mulheres tende a incentivar a participação feminina na política. “Vejo que é uma forma que eu e a outra candidata temos de estimular essa participação, para que elas acreditem que somos capazes. Nós, mulheres, temos um olhar amplo, conseguimos administrar casa, filhos, marido, e isso na gestão pública é um ponto positivo”, comenta Viviane.

Cleci completa: “Tenho um orgulho enorme ser candidata à prefeita, e além do mais disputando com outra mulher. Isso nos diz que as mulheres estão tendo vez e voz e é isso que a gente quer. Estamos encorajando muitas mulheres a vir participar, para vir a ser novas candidatas. É isso que a gente precisa passar para as mulheres. Nós temos muitas mulheres guerreiras, que lutam e que querem ver esse município melhor.”

Pequena presença
Apesar da exclusividade feminina na disputa pela prefeitura, a presença da mulher em cargos eletivos em Rancho Queimado não é tão frequente. Desde 1962, quando ocorreu a emancipação, esta será a primeira vez que uma mulher vai administrar o município.

Na Câmara de Vereadores, que está na 12ª legislatura, foram apenas cinco vereadoras desde a instalação do legislativo municipal, em 1962. A pioneira foi Felícia Schütz, entre 1977 e 1983. Uma mulher só voltaria a ser eleita vereadora em 2000. Desde então, em todas as legislaturas, há pelo menos uma representante do sexo feminino entre os parlamentares. Inclusive, a atual presidente da Câmara Municipal é uma mulher: Salete Coelho Schütz, do PP.

Embora considere o caso de Rancho Queimado exemplar, a cientista política Renata Andrade de Oliveira ressalta que a participação da mulher na política, especificamente no caso de cargos eletivos, ainda é muito pequena no Brasil. Segundo ela, atualmente, só 11% das prefeituras no país são administradas por mulheres, enquanto nas câmaras municipais 13% das vagas são ocupadas por vereadoras.

O Brasil é o país com menor participação feminina na América Latina e um dos menores do mundo. De acordo com Renata, enquanto na Bolívia e na Nicarágua já há praticamente uma paridade entre homens e mulheres no parlamento, no Brasil a participação feminina fica em média nos 10%.

“A participação das mulheres na política é fundamental se quisermos uma promoção de igualdade de gênero e de ideais democráticos”, comenta a cientista. “Infelizmente, ainda temos uma questão cultural muito forte que dificulta essa maior participação.”

Apesar de reconhecer uma tendência no aumento dessa participação nos últimos anos, Renata afirma que a política de cotas para mulheres nas disputas eleitorais não é suficiente para aumentar a presença feminina. Para ela, essa medida, isoladamente, não surtirá efeito se as instituições não trabalharem por essa inserção e, principalmente, se não houver uma mudança cultural.

“Historicamente, a mulher foi preparada para cuidar da casa, da família, e não para a política. Isso foi sempre reservado aos homens. É preciso desconstruir isso e entender que a mulher também tem lugar na política, que ela tem total capacidade para administrar”, comentou a cientista.

Nas ruas
“A mulher tem capacidade administrativa superior ao homem. A gente já vê isso em casa. Na vida pública, deve ser o mesmo.”
José Henrique Gattiboni, professor

“A gente confia mais nas mulheres. Tem que ter mudança, é o que nós queremos. Que vença a melhor (candidata).”
Rita de Cássia Proering, servente

 

Agência AL

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