
Da Editoria – Há uma velha máxima na política brasileira que diz que, quando o discurso encontra a realidade, é a realidade que costuma vencer. No caso do Partido Novo, a prestação de contas das eleições de 2026 criou exatamente esse tipo de confronto. Aqui em Santa Catarina, dois candidatos – Gilson Marques e Bia Borba – já receberam mais de R$ 2 milhões (veja mais no decorrer do texto).
Durante anos, o Novo fez da crítica aos gastos públicos e ao financiamento estatal de partidos e campanhas uma de suas principais bandeiras. Em material publicado pelo próprio deputado federal Gilson Marques, o parlamentar defendia que o eleitor não deveria apoiar candidatos que utilizassem Fundo Eleitoral ou Fundo Partidário. A justificativa era direta: quem utiliza dinheiro público para fazer campanha estaria demonstrando preocupação maior com a própria carreira política do que com a população.
Novo mudou de ideia
Em fevereiro de 2024, o Diretório Nacional aprovou por unanimidade o uso do Fundo Eleitoral. O partido explicou que havia crescido, que precisava ampliar sua representação e que as novas regras eleitorais tornavam cada vez mais difícil competir exclusivamente com recursos privados.
É importante reconhecer esse ponto: o Novo não escondeu a mudança. Publicou a decisão em seu próprio site.
Mas a justificativa produz uma situação politicamente curiosa. O partido passou a utilizar o mesmo dinheiro público que continua classificando como excessivo, distorcido e prejudicial.
O problema é que, nas eleições deste ano, o discurso não parece estar resistindo ao caixa de campanha. E há um problema, os principais beneficiários do fundão eleitoral do Novo em Santa Catarina são críticos ferrenhos ao uso do dinheiro público em campanhas.
Gilson Marques e a campanha milionária irrigada com dinheiro público
Em Santa Catarina, Gilson Marques já recebeu R$ 1,646 milhão quando somados os R$ 1,030 milhão do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), o chamado “fundão eleitoral”, com outros R$ 664 mil enviados pelo partido (que não se sabe ao certo se esses R$ 664 mil são dinheiro repassado pelos filiados ou a cota do Fundo Partidário). O valor corresponde a cerca de 97,15% de toda a arrecadação declarada por sua campanha até agora.
Mas, enquanto recebe essa quantia milionária de recursos públicos para a campanha, Gilson marques continua discursando em sua campanha o seguinte: “Chega de impostos”
Bia Borba: mais de meio milhão de reais em recursos públicos
A vereadora de Biguaçu e candidata a deputada federal Bia Borba apresenta uma situação ainda mais emblemática porque sua campanha recebeu recursos provenientes dos dois fundos públicos.
Até a última atualização consultada, Bia havia declarado R$ 442 mil do Fundo Eleitoral e R$ 100 mil do Fundo Partidário, totalizando R$ 542 mil em dinheiro público. O montante representa aproximadamente 99% dos R$ 546 mil arrecadados pela candidatura. Apenas R$ 4 mil foram declarados como doação de pessoa física.
Ou seja: praticamente toda a campanha de uma candidata do Novo está sendo financiada por recursos públicos.
Dos R$ 542 mil, R$ 442 mil vieram diretamente do Fundo Eleitoral, enquanto outros R$ 100 mil vieram do Fundo Partidário. Os registros mostram repasses feitos pela direção nacional do Novo à candidatura.
E novamente: não há ilegalidade nisso.
O eleitor, entretanto, tem todo o direito de perguntar se há coerência.
É justamente aí que aparece a incoerência
O Novo pode argumentar que simplesmente que mudou de ideia e está utilizando um mecanismo permitido pela legislação eleitoral. E está. O uso do FEFC é legal, regulamentado pela Justiça Eleitoral e adotado por praticamente todos os grandes partidos.
Mas essa não é a questão.
A questão é a distância entre o que se dizia quando o Novo criticava o financiamento público de campanhas e o que se faz agora que o dinheiro público está disponível para financiar os próprios candidatos.
Em material divulgado pelo próprio Gilson Marques, o parlamentar chegou a defender que os recursos do Fundão deveriam ser destinados a áreas como saúde, segurança e educação. Também afirmava que o Novo não utilizava dinheiro público em campanhas.
Em 2026, pelo menos no caso de sua candidatura, a realidade mudou: mais de R$ 1,6 milhão já entrou na campanha.
E não é um caso isolado dentro do Novo catarinense.
A vereadora Bia Borba, em seus discursos na tribuna da Câmara Municipal e em vídeos que posta na internet, faz duras críticas ao mal uso do dinheiro público por parte de Município, Estado e União. Mas, agora, financia a própria campanha a deputada federal com verba pública, aquela do fundão eleitoral (que tem origem nos impostos pagos por todos os contribuintes brasileiros).
O discurso vale quando o dinheiro é dos outros?
O debate não deveria ser transformado em uma discussão simplista entre “dinheiro legal” e “dinheiro ilegal”. Os recursos são legais. O próprio sistema eleitoral brasileiro estabeleceu os fundos públicos justamente para financiar campanhas.
O ponto é outro: se o financiamento público de campanhas é tão ruim, tão caro e tão contrário aos princípios defendidos pelo Novo, por que aceitar o dinheiro quando ele está disponível para os seus próprios candidatos?
É perfeitamente legítimo que um partido mude de posição diante de uma mudança na legislação ou na realidade política. O que não parece razoável é manter o discurso de condenação ao sistema enquanto se usufrui exatamente do mecanismo que se condenava.
A contradição fica ainda mais evidente porque o Novo não nasceu defendendo uma política tradicional de “pegar o dinheiro porque todos pegam”. Ao contrário. A diferenciação em relação aos partidos tradicionais foi construída justamente sobre a ideia de que era possível fazer política de outra maneira.
O próprio Gilson Marques já havia apresentado essa postura como uma espécie de princípio.
Agora, porém, o princípio parece depender de quem está recebendo o dinheiro.
E há uma ironia adicional
O chamado “fundão” não surgiu espontaneamente dentro dos partidos. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha é dinheiro público previsto no Orçamento e distribuído aos partidos conforme as regras estabelecidas pela legislação eleitoral.
Em 2026, o FEFC chega a aproximadamente R$ 4,96 bilhões. O Novo está entre as legendas que proporcionalmente mais rapidamente distribuíram os recursos recebidos aos seus candidatos. Levantamento da Folha de S.Paulo mostrou que o partido já havia repassado cerca de 51% dos aproximadamente R$ 37 milhões a que tinha direito naquele momento.
Portanto, o problema não está apenas no candidato que recebe.
Está também no partido que distribui.
Se o Novo, que em fevereiro de 2024 mudou de ideia e passou a aceitar o fundão eleitoral, entende que dinheiro público não deveria financiar campanhas, seria coerente que recusasse os recursos e orientasse seus candidatos a buscar exclusivamente doações privadas, financiamento coletivo e recursos próprios.
Foi, afinal, esse o argumento utilizado pela própria legenda durante muito tempo.
A incoerência que o eleitor deve avaliar
É importante deixar claro: ninguém está dizendo que Gilson Marques ou Bia Borba cometeram irregularidade. Os valores estão declarados e fazem parte da prestação de contas submetida à Justiça Eleitoral. As informações são parciais e podem mudar até o encerramento da campanha.
A questão é política — e, sobretudo, de coerência.
O eleitor catarinense que ouviu durante anos que o Estado deveria gastar menos, que os impostos são excessivos e que o dinheiro público não deveria ser utilizado para financiar projetos políticos tem agora uma pergunta bastante simples para fazer aos candidatos do Novo:
Se o dinheiro público é tão ruim para financiar campanhas, por que ele é bom quando financia a sua?
Talvez seja justamente nessa hora que o discurso liberal encontre seu teste mais difícil.
Porque criticar o “fundão” quando ele financia os adversários é fácil.
Difícil é abrir mão dele quando o cheque chega à própria campanha.
