Moro critica Lula e Bolsonaro e faz discurso de presidenciável em evento de filiação ao Podemos

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O ex-juiz federal Sergio Moro anunciou, nesta quarta-feira (10), sua filiação ao Podemos – antigo Partido Trabalhista Nacional (PTN) – e fez um discurso em tom de candidato à Presidência da República durante cerimônia realizada no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília.

O evento marcou o primeiro passo da vida partidária do ex-magistrado e ocorreu 565 dias após o rompimento com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e a saída do Ministério da Justiça, em meio a acusações de que o mandatário tentava interferir politicamente na Polícia Federal.

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“Não tenho uma carreira política e não sou treinado em discursos políticos. Alguns até dizem que não sou eloquente, e muita gente critica a minha voz. Mas, se eventualmente eu não sou a melhor pessoa para discursar, posso assegurar que sou alguém em que vocês podem confiar”, disse no início do discurso.

Ao longo de cerca de 50 minutos, Moro defendeu o legado da operação Lava Jato, enalteceu a bandeira do combate à corrupção no país – seu principal elo com o eleitorado e assunto mais abordado no discurso –, criticou as gestões petistas e bolsonarista e compartilhou ideias para o País. O evento contou com a participação de cerca de 700 pessoas.

“Precisamos falar sobre corrupção. Muitos me aconselharam a não falar sobre o assunto, mas isso é impossível. Combater a corrupção não é um projeto de vingança ou de punição. É um projeto de justiça na forma da lei. É impedir que as estruturas de poder sejam capturadas e dessa forma viabilizar as reformas necessárias para melhorar a vida das pessoas”, disse.

“É um projeto para termos um governo de leis que age em benefício de todos e não apenas de alguns. Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de petrolão, chega de rachadinha. Chega de querer levar vantagem em tudo e enganar a população”, continuou.

Durante o discurso, Sergio Moro buscou não apenas criticar a administração do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quem condenou à prisão nos casos da Lava Jato pela 13ª Vara Federal de Curitiba (PR) e pode enfrentar nas eleições de 2022, mas também o próprio presidente Jair Bolsonaro, cujo governo serviu como Ministro da Justiça até abril de 2020.

“Em 2018, recebi um convite do presidente eleito para ser ministro da Justiça. Como todo bom brasileiro, eu tinha esperança por dias melhores. Como todo brasileiro, eu pensava no que nós havíamos presenciado nos últimos anos: os grandes casos de corrupção sendo revelados, dia após dia, os pixulecos, as contas na Suíça, milhões de reais ou dólares roubados”, afirmou.

“A Petrobras, nosso orgulho, foi saqueada dia e noite por interesses políticos, como nunca antes na história desse país. Apartamentos forrados de dinheiro roubado em espécie e uma persistente recessão, provocada pelos mesmos governos que permitiram tudo isso, com as pessoas comuns desempregadas e empobrecendo”, disse.

“Era um momento que exigia mudança. Eu, como juiz da Lava Jato, me sentia no dever de ajudar. Havia pelo menos uma chance de dar certo e eu não poderia me omitir. Aceitei o convite e ingressei no governo. Meu objetivo era melhorar a vida das pessoas por meio de um trabalho técnico, principalmente reduzindo a corrupção e outros crimes”, pontuou.

“O meu desejo era de continuar atuando como ministro em favor dos brasileiros. Infelizmente, não pude prosseguir no governo. Quando aceitei o cargo, não fiz por poder ou prestígio. Eu acreditava em uma missão. Queria combater a corrupção, mas, para isso, eu precisava do apoio do governo e esse apoio foi negado. Quando vi meu trabalho boicotado e quando foi quebrada a promessa de que o governo combateria a corrupção sem proteger quem quer que seja, continuar como ministro seria uma farsa”, complementou.

Sergio Moro é um dos nomes especulados na congestionada “terceira via” para a corrida presidencial. Seu nome é hoje considerado um dos mais competitivos, com cerca de 9% das intenções de voto nas simulações de primeiro turno apresentadas pelas pesquisas. Mas o espaço é estreito, já que os levantamentos mostram que Lula e Bolsonaro concentram mais de 2/3 do eleitorado.

“Após um ano morando fora, eu resolvi voltar. Não podia ficar quieto, sem falar o que penso, sem pelo menos tentar mais uma vez, com você, ajudar o país. Então resolvi fazer do jeito que me restava: entrando para a política, corrigindo isso de dentro para fora”, disse.

“Se necessário, eu lutaria sozinho pelo Brasil e pela Justiça. Seria Davi contra Golias. Mas, ao ver esse auditório, tenho certeza que não estou sozinho. Tenho essa mesma certeza quando eu encontro as pessoas nas ruas, nos mercados, nas escolas, em qualquer lugar, e elas estão com um sorriso no rosto, me cumprimentam ou elogiam pelo trabalho que foi feito na Lava Jato ou no Ministério da Justiça. Então, voltei ao Brasil para ajudar a construir um projeto que é de muitos”, afirmou em tom de candidato.

Frequentemente cobrado para apresentar posicionamentos econômicos mais claros, Moro defendeu o livre mercado e a livre iniciativa, ressaltou a importância da responsabilidade fiscal e o respeito ao teto de gastos e disse que é necessário privatizar “estatais deficientes”. Em outro sentido, o ex-juiz também defendeu a criação de uma força-tarefa permanente e independente focada na erradicação da pobreza – nas suas palavras, o maior desafio desta geração.

“Todo cidadão tem o potencial de se tornar uma versão melhor de si mesmo. Essa é minha crença fundamental, que cada indivíduo tem sua própria dignidade e tem a capacidade de se aprimorar continuamente. Por acreditarmos no potencial de cada um, defendemos o livre mercado, a livre empresa e a livre iniciativa. Tudo isso, sem que o governo tenha que interferir em todos os aspectos da vida das pessoas. Precisamos reformar nosso sistema confuso de impostos. Há quanto tempo falamos em fazer uma reforma tributária e isso nunca é feito? Precisamos privatizar estatais deficientes. Precisamos abrir e modernizar nossa economia buscando mercados externos. O tempo é de inovação e não podemos ficar para trás neste mundo cada vez mais dinâmico e competitivo”, disse.

“Mas neste país em que compartilhamos nosso senso de comunidade impede que adotemos um capitalismo cego, sem solidariedade ou compaixão. Nosso senso de justiça, os nossos valores cristãos – e que são compartilhados pelas outras religiões – exigem que as grandes desigualdades econômicas sejam superadas. Uma das prioridades do nosso projeto será erradicar a pobreza, acabar de vez com a miséria”, pontuou.

“Muita gente pensa que isso é impossível, como diziam que era impossível combater a corrupção. Não é e nem precisa destruir o teto de gastos ou a responsabilidade fiscal para fazê-lo. Nós podemos erradicar a pobreza, e esse é o maior desafio da nossa geração”, continuou.

Moro reconheceu a relevância de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Auxílio Brasil – que o governo federal tenta tirar do papel ainda neste ano – e defendeu um olhar focado sobre a necessidade de cada família, mas criticou a forma como as iniciativas têm sido tomadas pela atual administração.

“Ao olharmos para as reformas que estão sendo aprovadas, o que a gente percebe é que ninguém está pensando nas pessoas. Mesmo quando se quer uma coisa boa, como esse aumento do Auxílio-Brasil ou do Bolsa-Família, que são importantes para combater a pobreza, vem alguma coisa ruim junto, como o calote de dívidas, o furo no teto de gastos e o aumento de recursos para outras coisas que não são prioridades”, afirmou.

“Quando o governo resolve vender uma empresa estatal como a Eletrobras, aprova junto uma série de jabutis, coisas que ninguém entende direito, mas que na prática todo mundo sabe que significa que a conta de luz vai ficar mais cara para alguém ganhar mais dinheiro. E aí o governo gasta mais do que pode e lá vem mais inflação e mais juros. E assim o País não cresce e não se vê emprego. E, com tudo isso, as pessoas passam a acreditar que não há governo, que não há futuro, que estamos sozinhos e que tudo é inútil”, disse.

Durante o discurso, Moro também destacou o desempenho ruim da economia, com inflação elevada, juros crescendo e desemprego em alta, a despeito do cenário mais benigno da epidemia do novo coronavírus no país.

“Há brasileiros passando fome. Isso dói em todos nós. A inflação está muito alta: os técnicos falam em um número, mas quem vai no posto de gasolina ou na mercearia sabe que é muito mais. Os juros subiram, dificultando ainda mais a vida do empresário, do agricultor ou das pessoas comuns. E os juros ainda vão subir neste governo e isso vai tornar a vida das pessoas ainda mais difícil. Não falo por ser pessimista, mas porque o país está indo para o rumo errado”, disse.

Casa nova

O Podemos, novo partido de Sergio Moro, conta com uma bancada de 10 deputados federais (15ª na Câmara dos Deputados) e 9 senadores (terceira no Senado Federal). Nas últimas eleições municipais, a legenda aumentou de 30 para 102 seu número de prefeitos, um dos maiores saltos no pleito, mas ainda ocupa a 14ª posição na lista dos partidos que comandam mais prefeituras.

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Podemos recebe R$ 2,90 milhões por mês do fundo partidário em 2021, totalizando R$ 34,83 milhões no ano, o equivalente a 3,89% do bolo todo. Isso faz do partido o 12º em dotação de recursos do fundo, com apenas 1/3 do que recebe o primeiro da lista – PSL, com cerca de R$ 104,56 milhões anuais.PUBLICIDADE

O valor do fundo eleitoral ainda não está definido para o próximo pleito, mas, considerando o montante distribuído entre as legendas nas últimas eleições municipais, o Podemos teria direito a R$ 77.968.130,80 – 38,73% dos valores recebidos pelo PT (R$ 201.297.516,62).

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