É de Acácio Ramos, jornalista da velha guarda, a melhor definição que conheço de repórter: “São pessoas que perguntam”. De fato, talvez esse profissional seja o único com licença quase total para perguntar, por mais ousada ou impertinente que seja a frase antecedida pelo ponto de interrogação – ficou famosa a ocasião em que o jornalista Ernesto Varella, personagem de Marcelo Tas, pergunta para Paulo Maluf, no início dos anos 1980: “Muitas pessoas não gostam do senhor, dizem que o senhor é corrupto. É verdade isso, deputado?”. O político virou as costas e não respondeu. Mas aquele silêncio foi altamente significante, já que a história daria razão a Ernesto/Marcelo.

A frase lapidar de Ramos está no livro “Repórteres”, uma compilação de textos de grandes jornalistas brasileiros organizada por Audálio Dantas[1]. “Saber perguntar, portanto, já é mais do que meio caminho andado para um bom exercício da profissão”, escreve Dantas no prefácio da obra. De fato, não há o que discordar. Mas ao dístico de Ramos eu, modestamente, faria um acréscimo: “Repórteres são seres que perguntam e que têm fontes”.

Sem as fontes, afinal, nós repórteres não teríamos nossa matéria-prima: a informação. Nossas perguntas ficariam suspensas no ar. Afinal, sejam recatadas ou extrovertidas, narcísicas ou discretíssimas, confiáveis ou não, são elas, as fontes, que nos alimentam diariamente com a joia bruta da atividade jornalística e também o seu clímax, o furo.

Ainda na faculdade de Jornalismo, aprendi na teoria a relação jornalística com as fontes: a classificação das mais às menos confiáveis, as estratégias comunicacionais para extrair delas a melhor informação possível, a relação profissional que faz com que a fonte confie no jornalista e lhe dê aquilo que ele pede sem exigir vantagem imediata, e a parte mais sensível dessa relação, o sigilo, fundamental para preservar a origem da informação quando as circunstâncias assim o pedirem.

Como qualquer repórter que se preze, cultivei laços com fontes de informação por onde passei – e esse exercício de sedução faz do jornalismo uma profissão apaixonante. Mas a partir de junho de 2011 meu relacionamento com elas foi colocado à prova de uma maneira radical. Naquele mês, fui intimado para depor na Polícia Federal em um inquérito que apurava o vazamento de documentos de uma operação policial que havia investigado um esquema de corrupção na delegacia do Ministério do Trabalho em S. José do Rio Preto, interior paulista. No mês anterior, eu havia divulgado, pelo jornal “Diário da Região”, onde atuo, reportagem baseada em documentos obtidos com uma fonte que tivera acesso a documentos da operação. Na ocasião, o procurador regional da República Álvaro Stipp, irritado com a divulgação dos papéis, havia me pressionado para revelar a fonte, o que imediatamente me neguei a fazer.

Por tudo isso, eu já esperava um depoimento tenso na PF. Mas não imaginaria o que estava por vir. Para minha surpresa e espanto, fui indiciado por coautoria em quebra de sigilo telefônico, crime previsto na lei 9.296, de 1996, por ordem expressa do procurador Stipp. Não havia como eu ficar em silêncio diante de um abuso como aquele: o procurador, que nunca teve um relacionamento pacífico com a imprensa, utilizava naquele momento o peso do cargo que detinha para se vingar e, ao mesmo tempo, me constranger.

Nas semanas seguintes, meu indiciamento ganharia a mídia nacional e o apoio de entidades ligadas à liberdade de expressão, como a OAB e a Abraji. De repente, Stipp e o Ministério Público Federal se viram encurralados por uma saraivada de críticas. “Lamentavelmente, provêm de autoridades do próprio mundo jurídico sinais frequentes de que não conhecem, não respeitam, não entendem, nem sequer desejam entender o princípio, afinal tão simples, de que o direito à informação deve ter seu exercício plenamente garantido numa verdadeira democracia”, escreveu o jornal “Folha de S.Paulo” em editorial.

O inquérito seguiu e, em dezembro de 2014, a pedido de outro procurador que assumira o caso, o juiz da 4ª Vara Federal de Rio Preto, Dasser Lettière Jr, determinou a quebra do sigilo telefônico meu e de toda a redação do “Diário da Região” na tentativa de se chegar à fonte da informação. Depois de idas e vindas, a polêmica decisão de Lettière Jr foi suspensa liminarmente pelo STF – o julgamento do mérito segue inconcluso.

O amparo praticamente unânime que obtive nesse imbróglio com o procurador Stipp e o juiz Lettière Jr foi a catapulta que precisava para percorrer voos mais altos na profissão de jornalista. Seis meses mais tarde, em janeiro de 2012, me pus o desafio de escrever um livro-reportagem sobre as histórias de glória e ruína, ganância e maldade travadas na principal rota do narcotráfico no Brasil, a “rota caipira”, assim batizada pela mídia nos anos 1990 por abranger boa parte do interior paulista, norte do Paraná e Triângulo Mineiro. Por atuar como jornalista no interior de São Paulo desde 2001, eu já havia publicado dezenas de reportagens sobre algumas dessas histórias. Mas sabia que teria de me desdobrar para colher documentos de várias outras. Seria um trabalho exaustivo, aparentemente fadado ao insucesso por várias razões. A principal delas é que, por conterem interceptações telefônicas, praticamente todas as ações penais contra traficantes tramitam em segredo de Justiça. A justificativa é de que essas conversas contêm detalhes da intimidade dos investigados, o que quase nunca é verdade, já que só entram no inquérito diálogos que interessam diretamente à investigação policial. E ter acesso a esse material seria vital para a produção do livro, já que os diálogos e as estratégias policiais contidos nele trariam agilidade e ação à narrativa.

Como convencer pessoas com acesso a esses papéis a me fornecer cópias físicas ou digitais daqueles inquéritos imensos, com até 10 mil páginas cada? Um agravante é que eu nunca havia tido contato com boa parte delas. E não haveria tempo para conquistá-las com a convivência profissional, como é tão comum entre os jornalistas. Foi aí que, pela primeira vez, aquele indiciamento absurdo jogou a meu favor: uma simples busca no Google bastava para a fonte soubesse que, por maior que fossem a pressão e a chantagem do Estado, eu não revelaria a origem daqueles documentos. Tornei-me então, aos olhos daquelas pessoas, um jornalista em que poderiam confiar.

Obviamente não funcionou em todos os casos – foram muitos os dissabores nas dezenas de viagens em busca de entrevistas e documentos. Mas posso dizer que, no balanço geral, fui bem-sucedido nesse grande teste de paciência e persistência, de longe o maior desafio da minha carreira. Era um trabalho de garimpagem lento, silencioso, feito paralelamente às minhas atividades de repórter em uma redação de jornal. Ao final desse processo, que durou cinco anos, reuni mais de 80 mil páginas de documentos e entrevistei mais de 70 personagens envolvidos direta e indiretamente na “rota caipira”. Foi árduo o trabalho de ler tantas páginas, selecionar os trechos mais interessantes, cruzar dados de duas ou mais operações policiais contra o tráfico e sistematizar em uma narrativa jornalística ágil. Isso me consumiu dezenas de fins de semana e pelo menos cinco férias. À medida que conseguia os documentos, escrevia os capítulos, que cresciam e cresciam. Quando tudo acabou, “Cocaína: a rota caipira” ficou com 800 páginas. O tamanho integra a mensagem da obra: o narcotráfico é complexo, dinâmico e sem um fim aparente. Parafraseando Umberto Eco, “Cocaína” é uma obra aberta.

Agora, com o livro publicado, não consigo deixar de pensar nos desafios dessa jornada e como ela transcorreu em bases tão caprichosas. Hoje, graças à arrogância de um procurador contrariado, conquistei uma rede de fontes de informação, que veem em mim um jornalista em quem podem confiar. “Cocaína: a rota caipira” materializa o meu amadurecimento como “pessoa que pergunta”. Por isso mesmo, é a narrativa da minha profissão de fé no poder revelador do jornalismo.

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[1] Dantas, Audálio (org.). Repórteres. São Paulo: Editora Senac, 1998.

Allan de Abreu – Repórter especial do jornal “Diário da Região”, em S. José do Rio Preto (SP), professor universitário e mestre em teoria da literatura. É autor do livro-reportagem “Cocaína: a rota caipira”, publicado pela editora Record

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