Santa Catarina é 3º estado do país com a maior taxa de aids

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*Jéssica Trombini

Um grupo de oito pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) estudou nos últimos dois anos a dinâmica de disseminação do HIV e suas rotas de dispersão na região Sul do Brasil. Eles caracterizaram a epidemia do HIV quanto aos subtipos que circulam pela região, gerando informações que vão auxiliar na escolha dos medicamentos antirretrovirais e que poderão ser utilizadas na saúde pública.

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Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em dezembro de 2015 mostram que, apesar de a incidência de aids no Sul ter se mantido estável nos últimos, a região ainda possui o maior índice de detecção a cada 100 mil habitantes: 31,1 casos, bem acima da média brasileira, com 20,5 casos/ 100 mil habitantes. Santa Catarina é 3º estado com a maior taxa de aids, atrás apenas do Amazonas e do Rio Grande do Sul.

O estudo pode influenciar o direcionamento de campanhas públicas a públicos-alvo específicos para diminuir a transmissão do vírus e conter o avanço de novos casos, além de facilitar a identificação de fatores de risco ligados à infecção pelo HIV. “Investigações quanto à origem, disseminação e transmissão do HIV poderão garantir formas de beneficiar a saúde pública, caracterizando os principais pontos de transmissão, incluindo as cidades com importantes focos de disseminação, o comportamento de risco e a idade com o maior risco de infecção”, diz o coordenador da pesquisa, Aguinaldo Pinto.

O HIV é classificado em tipos, grupos, subtipos e formas recombinantes que se distribuem de maneira heterogênea na população mundial. No Brasil e na maioria dos países dos continentes americano e europeu, o HIV-1 subtipo B predomina; no entanto, na região Sul existe alta prevalência do subtipo C, uma forma viral de alta incidência mundial e atualmente responsável por mais da metade das infecções por HIV no mundo. “A epidemia do HIV-1 no Sul do Brasil é diferente da no resto do país. Principalmente em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, mas também em menor escala no Paraná, o HIV-1 subtipo C é muito prevalente”, relata o professor.

Os dados da pesquisa demonstram que a epidemia do HIV-1 subtipo C está em expansão pelo país, e seus dados são corroborados por outros estudos que encontraram uma crescente prevalência do subtipo também nas regiões Centro-Oeste e Sudeste. “Acreditamos que nossa pesquisa chama a atenção para a ascensão dessa nova forma do HIV-1 no Brasil e também contribui para identificar grupos que podem ser alvos de campanhas de saúde para prevenir a rápida disseminação do subtipo C”, afirma Aguinaldo.

A principal contribuição da pesquisa está na identificação de grupos que podem ser alvos de campanhas de saúde para prevenir a rápida disseminação do subtipo C. “No estado de Santa Catarina, observamos que a epidemia do HIV-1 apresenta dois padrões distintos. Pessoas heterossexuais se infectam mais frequentemente com o HIV-1 subtipo C, enquanto homens que fazem sexo com homens (HSH) são mais infectados pelo subtipo B”, explica o coordenador da pesquisa.

Os resultados podem ser uma evidência de que o subtipo C esteja promovendo um crescimento maior da epidemia entre heterossexuais, podendo ser este um ponto de ação de campanhas de prevenção à Aids. A segregação da epidemia está relacionada com o fato de heterossexuais e HSH comporem diferentes redes de transmissão do vírus, que não se comunicam eficientemente. “Isso significa que no passado o subtipo B foi introduzido em uma rede HSH; e o subtipo C, em uma rede heterossexual, mantendo-se ‘separados’ até hoje.”

Os estudos em epidemiologia molecular, como o projeto coordenado pelo professor Aguinaldo, buscam descrever com mais detalhes o processo de disseminação de epidemias. Liderado pela UFSC, o estudo contou também com a participação de pesquisadores da Fundação Estadual de Pesquisa e Produção em Saúde – RS (FEPPS), permitindo o recrutamento de voluntários do interior gaúcho e catarinense para realizar a pesquisa. Ao todo participaram 300 voluntários, de 14 cidades, sendo sete catarinenses: Criciúma, Blumenau, Itajaí, Chapecó, Joinville, Lages e Florianópolis.

A pesquisa contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc), da Secretaria de Estado da Saúde e do Ministério da Saúde por meio do PPSUS, o Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde. O projeto foi selecionado na chamada de 2012, e está em fase de conclusão.

“Este financiamento permitiu a formação de recursos humanos de excelência, uma vez que possibilitou a obtenção de reativos necessários para os experimentos realizados por diversos alunos”, relata o professor Aguinaldo. O pesquisador Tiago Gräf, por exemplo, realizou sua tese de doutorado em um tema relacionado ao projeto, e conduziu parte das análises no Rega Institute, ligado à KU Leuven University, da Bélgica. O estágio na Bélgica, apoiado pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), permitiu que fosse realizada uma análise refinada das informações obtidas dos voluntários do estudo.

*Jéssica Trombini – Coordenadoria de Comunicação da Fapesc

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