José Braz da Silveira: Depois da Tempestade

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José Braz da Silveira

*José Braz da Silveira

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Lembro-me dos fatos como se fosse hoje, contudo não consigo lembrar a data. Sei que era muito pequeno, pois minha mãe curvou-se com meu irmão menor ao colo para protegê-lo e com a mão direita me puxou para perto do seu corpo e convidou-nos a rezar. O vento soprava muito forte e a chuva surrava as paredes da casa de forma impiedosa. Pelo barulho inconfundível, sentimos como se fossem facadas no próprio corpo, quando as telhas voaram e se espatifaram no terreiro. Não sei quanto tempo durou aquela tempestade, mas nessas horas minutos parecem uma eternidade.

Quando tudo passou, saímos à rua para observar os estragos e estava tudo mudado. Da janela já se percebia a vegetação curvada e moída pelo vento. Muitas árvores haviam sido literalmente arrancadas do solo. Nossos vizinhos também atônitos saíam à rua e olhavam para os telhados de suas casas desolados. Apressados, procuravam as escadas para fazer os reparos antes do anoitecer. Incrível como nessas horas difíceis a comunidade se une e se ajuda. A solidariedade é um gesto quase que automático. Enquanto alguns saíam correndo para comprar telhas e lonas, outros se ofereciam para ajudar no que fosse necessário.

As cachoeiras cheias escorriam as águas barrentas e apressadas, mas o sol já havia voltado a brilhar naquela tarde de verão. De uma hora para outra, a paisagem havia mudado substancialmente. As plantações, entretanto, foram completamente devastadas. Nada ficou imune. Os animais assustados aproximavam-se dos estábulos como se pedissem socorro aos seus donos.

Meu pai não estava em casa naquela tarde e por certo, demoraria a voltar. Contamos com a ajuda de um amigo da família para os reparos emergenciais.  Naquele momento percebi que a solidariedade é um gesto inesquecível para ambas as partes e que a força de uma comunidade unida faz a diferença.

Em nossa casa o estrago não foi tão grande. As sobras de telhas que estavam guardadas no sótão foram o suficiente para a reposição. O telhado ficou até mais bonito com aquelas telhas novas, contrastando com as antigas.

Naquele dia pude compreender melhor o que queria dizer o meu pai que nas ocasiões de dificuldades financeiras ou de saúde por que passava a família sempre nos dizia: “Depois da tempestade vem a bonança”. E foram muitas as ocasiões em que essa frase foi empregada. Meu pai era um homem simples, mas ainda hoje aproveito muitos dos seus ensinamentos.

Passados muitos anos recebi um convite de formatura que me fez recordar aquele susto que havia passado na minha infância. No convite estava escrito em destaque: “Estava tudo escuro, exceto onde o relâmpago cortava o céu. O vento sibilava e as águas caíam, diluviais. Que devastação. Mas não demorou muito, os relâmpagos cessaram, os rios silenciaram, a chuva parou, as nuvens se foram com o vento manso e apareceu o arco íris. Então, durante várias semanas, os campos ficaram cobertos de flores e, por todo o verão, a grama esteve mais verde, os ribeirões mais cheios e as árvores mais frondosas. Tudo porque a tempestade havia passado por ali”. (Theodore Parker).

As coisas são mesmo assim. Dos traumas ou das tragédias, invariavelmente se tiram grandes lições e bons resultados. São muitas as pessoas que só foram aprovadas em um concurso público depois que sofreram um grave acidente, pois aproveitaram o período de convalescência para se dedicarem verdadeiramente aos estudos. Quantos jovens que somente se encontraram verdadeiramente com a sua própria vida depois de cometerem inúmeros erros? Quantas nações ressurgiram muito mais fortes, depois da devastação das guerras, tomando-se, por exemplo, apenas a Alemanha e o Japão?

Incontáveis são as pessoas que se levantam muito mais fortes depois de grandes quedas. Alguns só se encontram consigo mesmo, depois de passar por um problema sério de saúde. Outros que jamais entraram em uma igreja, mas depois de um grande revés, mudam de vida e nada mais fazem sem invocarem as bênçãos divinas.  Inúmeros são os povos que se reergueram de forma surpreendente, depois de grandes catástrofes, como os terremotos, os maremotos ou as enchentes.

No exato instante em que estava sendo escrito este texto, dia 24 de maio de 2015, o plantão de notícias informava sobre o grave acidente aéreo ocorrido em Mato Grosso do Sul com os apresentadores Luciano Huck e Angélica. Não só os dois famosos, como também os seus três filhos, as duas babás, o piloto e o copiloto, saíram ilesos por muita sorte. Alguém tem alguma dúvida de que a vida dessas pessoas vai mudar radicalmente depois desse acidente?

Devemos considerar ainda que o sucesso e as grandes reviravoltas dos seres humanos não acontecem apenas da pobreza para a riqueza, do anonimato para a fama ou da insignificância para a gloria. Do livro O Monge e o Executivo, de James C. Hunter, a incrível história de Leonard Hoffmann não nos deixa mentir. Trata-se de um famoso industrial milionário que só encontrou a felicidade plena ao abdicar de toda a sua fortuna, passando a viver em um mosteiro distante do luxo e da ostentação. De Leonard Hoffmann aproveitamos a seguinte frase: “O poder pode ser vendido e comprado, doado e tomado, mas a autoridade, não se compra nem se vende, tampouco pode ser doada ou tomada, a autoridade diz respeito a quem você é como pessoa, o seu caráter”.

Por essa lógica e por se falar em poder e caráter, agora que estamos constatando o colapso completo das instituições brasileiras, é justo que se esperem dias melhores para o nosso querido país. A diferença é que o atual governo institucionalizou a baderna e ainda acha que está fazendo o bem para o Brasil. Como bem disse o Ex-Ministro do STF Joaquim Barbosa, o governo atual tolera e reconhece a corrupção impregnada em todos os setores, mas se justifica afirmando que sempre foi assim, querendo dizer na verdade: “agora chegou a nossa vez”. Lamentável.

Mas como se pode constatar, a corrupção no Brasil não se resume às estruturas governamentais. A roubalheira se alastra de forma surpreendente e avassaladora para as instituições esportivas, empresariais, filantrópicas e até religiosas. Há uma visível crise de valores que ameaça contaminar as novas gerações. Um verdadeiro crime de “lesa pátria”. Parece que as pessoas já admitem com naturalidade as falcatruas praticadas diariamente e até já sentem vergonha de dizer que são honestas como profetizou Rui Barbosa.

Mas não podemos esmorecer. Precisamos acreditar que depois dessa tempestade de péssimos exemplos praticados por esses maus feitores da nação, um novo Brasil poderá resurgir e prosperar. Confiantes no principal norteador das ações da Academia de Letras de Biguaçu, devemos lutar a cada dia pela “sublimação do ser” que deve se sobrepor ao “ter” e renovar esse compromisso a cada instante. E que tudo se realize por meio das nossas atitudes.

Precisamos exercitar a esperança para reconstruirmos um novo Brasil. O Brasil dos nossos sonhos é perfeitamente viável. Mas como ensina o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella, a esperança deriva do verbo “esperançar” e não do “esperar”. Não podemos, portanto, apenas esperar para ver a “banda passar”. Temos que conjugar diariamente o verbo “esperançar”, ou seja, exercitar a cidadania com esperança. Devemos acreditar que os nossos filhos poderão conhecer um Brasil diferente, um país de oportunidades, uma nação de prosperidades e com um povo mais feliz.

*José Braz da Silveira é advogado com mestrado em Ciências Jurídicas pela Univali e especialização em Políticas Públicas pela Udesc. Também é vereador no município de Biguaçu.

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