Opinião: A ética da bandidagem

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José Braz da Silveira

*José Braz da Silveira

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Certa vez, ao ler uma reportagem policial, deparei-me com uma declaração inusitada. Um integrante de uma quadrilha, especializada em assaltos a bancos havia declarado que no seu grupo, antes do inicio de qualquer ação criminosa, o pessoal se abraçava em círculo e fazia uma longa oração, rogando a Deus para que desse tudo certo. Chegou a comparar aquele gesto de fé e união aos atletas de futebol, que antes dos jogos costumam se reunir em círculo no meio do campo para um momento de reflexão e o famoso grito de guerra pela vitória.

Na escalada empreendida pelo corajoso Juiz Federal Sergio Moro, que vem apurando uma série de crimes praticados por bandidos travestidos de empresários em conluio com outros bandidos travestidos de políticos, observou-se uma declaração também inusitada. Um dos principais acusados, ao que parece, o chefe ou pelo menos um dos, autorizou o seu advogado a declarar para a imprensa “que não aceitaria a proposta de delação premiada, pois não faz parte da sua ética, “entregar” companheiros históricos”.

Por conta desse comportamento de extrema fidelidade aos companheiros históricos, uma determinada Diretora da Petrobrás, contratou uma consultoria a peso de ouro, para produzir um parecer favorável à compra de uma refinaria de petróleo sucateada nos Estados Unidos. Pelo referido parecer, o negócio da compra da refinaria de Pasadena seria altamente lucrativo para o Brasil, mas na prática todos nós sabemos o que de fato estava por trás daquele manobra e o que de fato aconteceu.

Também em uma reportagem veiculada na televisão, onde se denunciava uma máfia que praticava a corrupção a partir do fornecimento de merenda escolar para as escolas públicas, outro exemplo de como as coisas acontecem no Brasil. Existe bandido mais safado do que aquele que tira o sagrado alimento da boca de crianças pobres? Mas um desses bandidos, travestido de empresário fornecedor de merenda escolar, fez questão de demonstrar o seu perfil altruísta ao exibir para a reportagem, fotografias de uma ação social que a sua empresa faz anualmente, distribuindo brinquedos para crianças carentes. Pode uma coisa dessas?

A presente reflexão serve para tentarmos compreender a complexidade do ser humano e as mazelas que permeiam os meios políticos em nosso país. Falando de leis boas e ruins com um amigo aqui de Biguaçu, ouvi uma frase interessante: “há leis que têm nome e endereço”. Custei a entender, mas quando “caiu à ficha”, fui obrigado a concordar. De fato, determinadas leis são propostas com finalidades específicas, muitas vezes para beneficiar determinadas pessoas e dessa forma são muito injustas com o restante da sociedade.

O Brasil vai muito mal porque uma grande parcela da sociedade se mostra apática e indiferente a tudo. Para essa fatia da população, todos os políticos são iguais e nada mais pode ser feito. Outra parcela significativa acredita no ditado popular que diz: “ladrão que rouba de ladrão tem cem anos de perdão” e a outra parte, minoria absoluta, não consegue se organizar para se tornar a maioria, nas mãos de quem deveria estar o comando do nosso querido Brasil.

*José Braz da Silveira é advogado com mestrado em Ciências Jurídicas pela Univali e especialização em Políticas Públicas pela Udesc. Também é vereador no município de Biguaçu.

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